Roteiro tem uma cerimônia própria.

Cabeçalho de cena. Ação. Nome de personagem. Diálogo centralizado. Transição. Um monte de convenção que parece pequena até você tentar fazer tudo no braço em um editor comum.

Aí a cena para.

Você queria escrever:

INT. COZINHA - NOITE
HELENA encara a xícara fria.
HELENA
Eu não devia ter voltado.

Mas gastou energia ajustando margem, alinhamento e estilo. Quando finalmente fica bonito, a fala já perdeu o calor.

Fountain existe para evitar esse tipo de disputa.

Fountain é uma forma de escrever roteiro usando texto puro.

Você digita a cena seguindo convenções simples, e o editor entende o que aquilo significa. Um cabeçalho em maiúsculas vira cabeçalho. O nome do personagem vira fala. A ação continua como ação.

O arquivo continua leve, portátil e fácil de editar.

Um exemplo básico:

INT. APARTAMENTO - MANHÃ
RAFA abre a porta devagar. O corredor está vazio.
RAFA
Tem alguém aí?
Silêncio.

Você escreve a cena. A formatação vem depois.

Roteiro depende muito de ritmo.

Um diálogo precisa respirar. Uma ação precisa ser limpa. Uma cena precisa entrar e sair no ponto certo.

Quando a ferramenta exige atenção demais, o texto perde impulso. Fountain resolve parte disso porque não tenta transformar o autor em diagramador enquanto a cena ainda está nascendo.

Ele ajuda especialmente quando você quer:

  • rascunhar cenas rápido;
  • manter o roteiro em texto simples;
  • versionar arquivos sem bagunça;
  • evitar formatação manual;
  • exportar depois para formatos próprios de roteiro.

No Momo, a introdução a Fountain mostra como esse formato entra no ambiente de escrita. As páginas sobre cenas e falas ajudam no uso diário.

Você não precisa decorar tudo.

Comece com quatro blocos:

Use INT. ou EXT., lugar e momento.

EXT. RUA MOLHADA - NOITE

Escreva normalmente.

A chuva cai forte. Mauro atravessa a rua sem olhar para os lados.

Nome em maiúsculas, fala logo abaixo.

MAURO
Eu disse que voltava.

Quando precisar, use algo como:

CORTA PARA:

Com isso já dá para escrever muita coisa.

O perigo de qualquer formato é parecer que a forma resolve o texto.

Não resolve.

Fountain não cria conflito, subtexto, personagem ou virada. Ele só tira a formatação do caminho para você lidar com essas coisas sem uma barra de ferramentas pedindo carinho.

Um bom uso é escrever primeiro, revisar depois.

Na primeira passada, deixe a cena existir. Na segunda, olhe ritmo, cortes, falas, ação. Na terceira, confira se a estrutura está limpa.

Se precisar organizar cenas, tarefas ou referências do projeto, o Momo deixa o roteiro perto do restante do trabalho. Um personagem de roteiro também pode ter referência. Uma sequência também pode virar tarefa. Um prazo também pode entrar no fluxo.

Teste Fountain com uma cena de duas páginas.

Nada épico. Nada que precise explicar o universo.

Coloque duas pessoas em um lugar, dê uma tensão para elas e escreva até alguém fazer uma escolha ruim. Roteiro gosta disso.

Depois veja a pré-visualização, ajuste o que precisar e continue.

O melhor formato para roteiro é aquele que deixa a cena chegar antes da preocupação com a página. Fountain faz exatamente esse tipo de gentileza.