Personagem começa simples.

Um nome. Uma voz. Uma imagem meio vaga. Talvez uma jaqueta velha, uma mania, uma frase atravessada. Você escreve duas cenas e acha que conhece aquela pessoa.

Depois de cento e cinquenta páginas, descobre que não conhece tanto assim.

Ela tinha irmão? O pai morreu ou foi embora? O olho era castanho ou verde? Ela odeia café ou isso era outro projeto? Por que no capítulo 3 ela sabe uma coisa que só descobriria no 12?

O autor olha para o teto.

O teto não ajuda.

Muita gente começa criando fichas enormes.

Altura, peso, aniversário, comida favorita, signo, trauma, tipo sanguíneo, marca preferida de sapato, opinião sobre chuva, relação com primos de segundo grau.

Parece produtivo. Também pode virar uma forma elegante de adiar o capítulo.

Uma bíblia de personagens funciona melhor quando guarda o que volta para o texto. O que ajuda a escrever, revisar e manter continuidade.

Comece com:

  • nome completo;
  • apelidos;
  • idade ou fase da vida;
  • função na história;
  • relação com outros personagens;
  • desejo principal;
  • medo ou ferida;
  • mudança ao longo do livro;
  • detalhes físicos que aparecem no texto;
  • informações que não podem contradizer cenas futuras.

Isso já resolve muita coisa.

Se o personagem cresce, a ficha cresce junto. Se ele aparece duas vezes e some, talvez não precise de uma enciclopédia particular.

Personagem não vive isolado. Mesmo o mais solitário carrega alguém na cabeça.

Uma boa bíblia registra relações:

  • quem confia em quem;
  • quem deve algo a quem;
  • quem mente para quem;
  • quem sabe a verdade;
  • quem mudou de lado;
  • quem não pode estar na mesma sala sem piorar o dia.

Essas relações ajudam muito na revisão. Às vezes o problema de uma cena não está no diálogo, mas na relação mal lembrada entre duas pessoas.

No Momo, as referências podem guardar personagens e materiais de apoio perto do texto. Assim você consulta a ficha sem sair da escrita como quem vai buscar um documento em outro prédio.

Personagem muda.

Se não muda, pelo menos deveria causar mudança em alguém. Caso contrário talvez ele esteja apenas ocupando espaço com uma cadeira confortável.

Na bíblia, registre o arco:

Início: evita conflito e mente para manter a paz.
Meio: percebe que a mentira protege o vilão.
Fim: assume a verdade e perde a família.

Isso é mais útil do que saber a cor exata da bota, a menos que a bota seja uma pista. Se for, registre também. Bota importante merece respeito.

Bíblia de personagens não serve só para planejar.

Na revisão, ela ajuda a conferir continuidade:

  • o personagem sabe esta informação nesta cena?
  • o nome foi escrito igual em todos os capítulos?
  • a relação mudou antes ou depois deste evento?
  • a reação combina com o arco?
  • há detalhe físico contraditório?

Combine isso com a timeline quando a informação depende de ordem. Personagem saber algo cedo demais é um dos pequenos crimes favoritos de manuscritos longos.

O personagem pode surpreender.

Às vezes ele cresce além da ficha. Às vezes a história muda e aquela descrição perfeita do início fica sem sentido. Atualize. Corte. Reescreva.

A bíblia deve acompanhar o livro, não mandar nele.

Uma ficha boa é viva. Ela muda quando o personagem muda. Ela guarda memória sem impedir descoberta.

Use algo assim:

Nome:
Apelidos:
Função na história:
Desejo:
Medo:
Relações importantes:
O que sabe no início:
O que descobre:
Como muda:
Detalhes de continuidade:
Arquivos ou imagens de referência:

Preencha só o necessário para escrever melhor.

Se uma informação nunca volta para o texto, talvez ela possa esperar. O livro já tem coisa demais pedindo atenção.

O importante é que, quando Jorge reaparecer no capítulo 28, você saiba quem ele é, o que ele queria e por que diabos ele estava tão bravo na primeira cena.