Tem um tipo de explicação que começa com calma e termina com a mão desenhando no ar.
― Então, ele é irmão dela, mas só descobre depois que a cidade cai. Só que a cidade cai por causa de uma promessa feita pelo avô, que também aparece na timeline do livro 2…
Nesse ponto, a frase já saiu andando sozinha.
Você tenta organizar em lista. A lista cresce. Tenta colocar em uma nota. A nota vira um corredor comprido. Tenta lembrar de cabeça e a cabeça, coitada, já está cuidando de boleto, almoço, prazo e uma mensagem que você ainda não respondeu.
Às vezes o livro precisa ser desenhado.
Diagrama não precisa ser bonito
Seção intitulada “Diagrama não precisa ser bonito”O diagrama do escritor não é apresentação de empresa.
Ele pode ser feio. Pode ter seta torta, caixa amassada, palavra abreviada e uma bolinha que significa “aquele personagem que ainda não tem nome, mas claramente vai causar problema”.
O importante é mostrar relação.
Use diagramas para enxergar:
- núcleos de personagens;
- alianças e conflitos;
- linhas de causa e consequência;
- segredos compartilhados;
- promessas narrativas;
- viagens entre lugares;
- eventos que atravessam volumes.
Ferramentas como Excalidraw ajudam porque têm esse ar de quadro rabiscado. Não exigem perfeição. Você joga as caixas na tela, puxa setas e entende melhor o que estava tentando explicar com sofrimento.
Papel também funciona. Quadro branco também. Guardanapo também, desde que ele não desapareça antes do café acabar.
O que vale desenhar primeiro
Seção intitulada “O que vale desenhar primeiro”Comece pelo problema que está travando o texto.
Se você está perdido em personagem, faça um mapa de relações. Coloque o protagonista no centro e ligue cada pessoa importante a ele. Depois escreva na seta o tipo de força que existe ali:
- dívida;
- desejo;
- medo;
- mentira;
- proteção;
- rivalidade;
- culpa.
Se o problema é trama, desenhe causa e consequência. Um evento puxa outro. Uma decisão abre uma ferida. Uma promessa exige pagamento depois.
Se o problema é série, desenhe por volume. Livro 1, livro 2, livro 3. Embaixo de cada um, coloque o que nasce, o que muda e o que precisa voltar.
O desenho começa a mostrar quando uma ideia está solta demais para sustentar uma cena.
Depois do desenho, guarde a memória
Seção intitulada “Depois do desenho, guarde a memória”O perigo do diagrama é ele virar uma ilha bonita.
Você entende tudo enquanto olha para ele. Fecha a aba. Volta para o manuscrito. Três dias depois, procura a informação e pensa:
― Onde foi que eu coloquei aquela seta?
Por isso o diagrama funciona melhor como etapa de descoberta. Ele ajuda a pensar. Depois, o que ficou decidido precisa ir para um lugar que apareça durante a escrita.
No Momo, isso pode virar:
- referências para personagens, lugares e objetos;
- eventos na timeline;
- tarefas no Kanban;
- arquivos de apoio dentro do projeto;
- notas ligadas ao manuscrito.
O diagrama mostra o mapa. O Momo ajuda a transformar o mapa em trabalho perto do texto.
Um ritual simples
Seção intitulada “Um ritual simples”Quando a história embolar, faça uma sessão curta de diagrama.
- Escreva a pergunta que está travando a cena.
- Desenhe os elementos principais em caixas.
- Ligue apenas o que tem relação narrativa real.
- Nomeie as setas com verbos ou tensões.
- Marque o que precisa virar referência, timeline ou tarefa.
- Volte para o capítulo antes que o desenho vire hobby.
Essa última parte é importante.
Planejamento tem uma voz educada. Ele diz que só falta organizar mais uma coisa. Depois outra. Depois uma paleta de cores para as famílias nobres. Depois um mapa econômico do bairro.
Respira.
O diagrama serviu se ele devolveu uma cena para você escrever.
Desenhar para continuar escrevendo
Seção intitulada “Desenhar para continuar escrevendo”Um bom diagrama não tenta substituir o livro.
Ele dá forma ao que estava ocupando espaço demais na cabeça. Mostra onde a trama entorta, onde os personagens se repetem, onde uma promessa ficou sem dono.
Depois disso, o texto precisa receber a resposta.
Abra o manuscrito. Escreva a próxima cena. Se a seta estava certa, ela vai aparecer em forma de ação, escolha, consequência ou silêncio.
Esse é o melhor uso de diagrama para escritores: pensar longe por alguns minutos para escrever perto de novo.