“Quantas palavras eu preciso escrever por dia?”
Essa pergunta costuma aparecer com uma esperança bonita. A pessoa quer ordem. Quer uma conta. Quer que alguém diga: escreve 1.000 palavras por dia e em tal data o livro estará pronto, limpo, revisado, publicado e talvez até com uma xícara de café ao lado.
Seria ótimo.
O problema é que a vida entra no meio com uma falta de educação impressionante.
Tem trabalho. Tem família. Tem ônibus. Tem reunião que poderia ser e-mail e e-mail que poderia ser silêncio. Tem filho com fome às 5h40. Tem capítulo que parecia simples e resolve abrir um buraco no centro da trama.
A meta de palavras precisa sobreviver a isso tudo. Se ela só funciona em um dia perfeito, ela não é meta. É decoração.
Comece pelo tamanho do livro
Seção intitulada “Comece pelo tamanho do livro”Antes de escolher um número diário, estime o tamanho do manuscrito.
Não precisa acertar como se estivesse medindo remédio. Use uma referência:
- conto: 2.000 a 10.000 palavras;
- novela curta: 15.000 a 40.000 palavras;
- romance curto: 50.000 a 70.000 palavras;
- romance médio: 70.000 a 100.000 palavras;
- romance longo: acima de 100.000 palavras.
Um romance de 80.000 palavras assusta menos quando vira conta. Continua grande, claro. Mas fica grande de um jeito que dá para negociar.
Conte os dias que existem
Seção intitulada “Conte os dias que existem”A conta ingênua divide o total de palavras por todos os dias do calendário.
A conta honesta pergunta: em quais dias você realmente consegue escrever?
Talvez sejam quatro dias por semana. Talvez três. Talvez só sábado de manhã, antes da casa acordar e começar a pedir coisas com vozes diferentes.
Exemplo:
- meta total: 80.000 palavras;
- prazo: 6 meses;
- semanas aproximadas: 26;
- dias reais de escrita por semana: 4;
- sessões totais: 104;
- meta por sessão: cerca de 770 palavras.
770 palavras por sessão têm outro peso. Parece trabalho. Não parece sentença.
Guarde espaço para revisão
Seção intitulada “Guarde espaço para revisão”Escrever livro envolve palavra nova, mas também envolve corte. E corte dói porque, às vezes, a frase estava bonita. Só estava no livro errado.
Você vai reler, reorganizar, ajustar diálogo, conferir continuidade, reescrever abertura, preparar exportação. Se a meta só mede produção bruta, ela começa a empurrar o autor para frente mesmo quando o livro precisa de cuidado.
Uma regra simples: reserve de 20% a 30% do prazo para revisão e acabamento.
Se você tem seis meses, talvez quatro sejam de rascunho e dois de revisão. Se tem doze semanas, talvez oito sejam de escrita e quatro de reescrita.
No Momo, dá para combinar metas com tarefas no Kanban, tratando revisão como parte do trabalho, não como castigo depois da festa.
Alguns números possíveis
Seção intitulada “Alguns números possíveis”Para um romance curto de 60.000 palavras:
- 500 palavras por sessão, 4 vezes por semana: cerca de 30 semanas;
- 750 palavras por sessão, 4 vezes por semana: cerca de 20 semanas;
- 1.000 palavras por sessão, 5 vezes por semana: cerca de 12 semanas.
Para uma novela de 30.000 palavras:
- 500 palavras por sessão, 3 vezes por semana: cerca de 20 semanas;
- 750 palavras por sessão, 4 vezes por semana: cerca de 10 semanas;
- 1.000 palavras por sessão, 5 vezes por semana: cerca de 6 semanas.
O número mais bonito da planilha pode ser o pior número para a sua rotina.
O melhor número costuma ser aquele que você consegue repetir sem começar a sentir raiva do próprio livro. Parece pouco científico. É bastante prático.
Meta diária ou meta por sessão?
Seção intitulada “Meta diária ou meta por sessão?”Meta diária tem uma pegadinha emocional.
Você perde um dia e pronto: falhou. A terça-feira vira inimiga. A quarta começa com dívida. Na quinta você já está pensando que talvez este livro seja uma má ideia, o que é uma conclusão dramática demais para alguém que só teve uma semana cheia.
Meta por sessão costuma ser mais gentil. Você define quantas sessões reais tem na semana e mede progresso a partir delas. Segunda, quarta, sexta e domingo. Ou sábado e terça. Ou o que a vida permitir.
Os relatórios de escrita ajudam a perceber padrões: quanto você escreve por sessão, quais dias rendem melhor, quanto tempo leva para entrar no texto, quando o Pomodoro ajuda e quando você precisa de um bloco mais solto.
Ajuste depois de duas semanas
Seção intitulada “Ajuste depois de duas semanas”Toda meta inicial é uma aposta com roupa de planejamento.
Depois de duas semanas, olhe para o que aconteceu:
- quantas sessões você fez?
- qual foi sua média real?
- quais dias funcionaram melhor?
- a meta chamou você de volta para o livro ou virou cobrança?
- a próxima cena estava clara quando você sentou?
Se o número ficou alto, abaixe. Se ficou fácil demais, aumente. Se o problema era não saber o que escrever, talvez a resposta esteja em organizar capítulos, referências ou timeline antes de cobrar mais volume.
Qualidade também conta
Seção intitulada “Qualidade também conta”Tem dia em que 200 palavras resolvem uma cena que estava parada há semanas. Tem dia em que 2.000 palavras saem correndo e metade vai embora na revisão.
As duas sessões podem valer.
Um livro importante precisa de continuidade, mas também precisa de atenção. A meta ajuda quando traz você de volta para o manuscrito. Ela atrapalha quando vira uma voz no canto da sala dizendo que você está sempre atrasado.
Hoje, faça uma conta pequena:
- Escolha uma meta total aproximada.
- Defina um prazo possível.
- Conte seus dias reais de escrita.
- Calcule uma meta por sessão.
- Teste por duas semanas.
- Ajuste sem drama.
Depois abra o Momo, configure sua meta e escreva a próxima cena. Não precisa ser a melhor cena da sua vida.
Só precisa ser a próxima.